O que significa aprender com o Brasil?
O Brasil é um país cheio de polaridades e contradições. Mas seus conhecimentos culturais e ancestrais diversos podem nos dar uma aula em resiliência coletiva e transformar o pensamento e a prática da arquitetura, se estivermos abertos a isso.
Minha ideia do que a arquitetura poderia ser se ampliou quando Gilberto Gil, cantor e intelectual brasileiro, comparou os edifícios de Oscar Niemeyer, em Brasília, a uma canção. Colocou a arquitetura em diálogo com uma forma de arte que pode ser sentida, encarnada e performada. Desde então, tenho buscado em minha prática repensar como raça, gênero, conhecimentos ancestrais e ecologia podem influenciar a maneira de construírmos espaços e vivenciarmos a arquitetura.
No Brasil, embora 56% da população se autodeclare negra, há uma enorme lacuna de representação afro-brasileira no campo da arquitetura. Ao longo de todo meu trabalho arquitetônicp, curatorial, pedagógico e de pesquisa, eu crio condições que impulsionam as práticas espaciais afro-brasileiras para gerar novas formas de construção coletiva. Em 2018, fundei o Mulheres Negras Arquitetas, um projeto que mapeia o trabalho de mulheres negras brasileiras na arquitetura contemporânea, destacando mais de 800 profissionais nos 26 estados brasileiros. Dando continuidade a esse trabalho, fundei o Instituto Cambará, uma plataforma que promove a produção teórica, crítica e prática de pessoas afro-brasileiras. Por meio do Cambará, a teoria se torna matéria; estrutura, performance, diálogo. Os projetos que desenvolvemos investigam como a arquitetura pode se tornar um meio de reparação, escuta e encontro. Nesse sentido, o Cambará não é apenas uma instituição, mas uma atitude, um gesto curatorial que insiste na apropriação coletiva e nos saberes localizados.
OCO, uma das iniciativas atuais do Cambará, é tanto uma residência quanto uma estrutura de bambu projetada coletivamente com artesãos e arquitetos locais. A estrutura é, ao mesmo tempo, abrigo e espaço de troca, reunindo pessoas em uma prática de reparação. É uma arquitetura que respira e se transforma à medida que as pessoas a habitam. OCO encarna as mesmas questões que movem minha pesquisa: como podemos construir a partir da troca de conhecimentos entre mulheres negras? Como a produção do espaço pode ser uma forma de aprendizado pelo ato de dar vida a projetos anticoloniais? Por meio do OCO, as ideias do Terreiro — a primeira expressão da arquitetura afro-brasileira — articulam cuidado coletivo e ancestralidade por meio de um discurso crítico sobre curadoria e experimentação arquitetônica. É onde se fudem a teoria, a prática e a crítica, constituindo parte do movimento contínuo que é o pensar fazendo.
Meu trabalho de doutorado com o Curatorial Research Collective investiga a relação entre dois lugares fundamentais do patrimônio arquitetônico brasileiro: o complexo do Coaty, projetado pela arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi, em Salvador, e o Terreiro Casa Branca do Engenho Velho, um projeto construído coletivamente pelas comunidades de Orixá e Quilombola. Entre o Terreiro e o modernismo, investigo como o conhecimento arquitetônico pode ser reimaginado quando aproximamos esses dois lados radicalmente diferentes da expressão arquitetônica brasileira.
Embora esses espaços sejam fruto de cosmologias distintas,Systems of belief and knowledge through which cultures understand the origin, structure, and meaning of the universe — and their relationships to land, other species, and each other. ambos consideram a arquitetura como um campo relacional, fundamentado no encontro entre corpo, território e comunidade. Criar esse diálogo entre o Terreiro e o modernismo não pretende gerar contraste ou polaridade. Em vez disso, busca aprender com a coexistência e com as diferentes formas como esses espaços preservam o tempo e a memória e estimulam a produção coletiva. Ao recolocar as arquiteturas afro-brasileiras no centro da história, do discurso e do conhecimento da arquitetura brasileira, o projeto busca reconhecer a diversidade de nossas manifestações espaciais. Ele contesta a ideia de que o concreto é um material natural, apolítico e universal, capaz de solucionar todos os problemas arquitetônicos, e desmonta a noção de que o modernismo brasileiro é a representação única ou definitiva da nossa identidade arquitetônica.
Aprender com o Brasil é reconhecer que a arquitetura não é simplesmente uma disciplina dedicada a projetar edificações, mas um processo de existência e uma prática que pode nos reconectar aos conhecimentos territoriais. A arquitetura diz respeito à forma como construímos depois da devastação, à maneira como a memória se inscreve no espaço e a como imaginamos outras formas de fazer. No meu trabalho, procuro acolher estes gestos coletivamente para tornar visível aquilo que foi historicamente silenciado e criar condições para que novas formas de diálogo possam surgir.
Essa, acredito, é a tarefa da arquitetura hoje: criar espaços que não apenas desenhem o caminho, mas também experimentar formas de habitá-lo.