O que significa aprender com o Brasil? Gabriela de Matos fala sobre o que duas histórias da arquitetura, uma dominante e outra negligenciada, podem nos ensinar sobre outras formas de construção.

24 de abril de 2026

Minas Gerais, Brasil

Em 8 de outubro de 2025, o rearc institute coorganizou o evento Learning from Brazil (Aprendendo com o Brasil), uma noite dedicada a investigar arquitetura, comunidade e resistência a partir de uma perspectiva brasileira, no Barbican Centre, em Londres. O evento contou com apresentações de Gabriela de Matos e dos coletivos brasileiros Ruína e Arquitetura na Periferia, com profissionais da área que compartilham abordagens inovadoras e ancoradas nas realidades sociais – e que colocam em xeque modelos convencionais de prática arquitetônica. O texto a seguir é uma transcrição editada da fala de Gabriela de Matos.

O que significa aprender com o Brasil?

O Brasil é um país cheio de polaridades e contradições. Mas seus conhecimentos culturais e ancestrais diversos podem nos dar uma aula em resiliência coletiva e transformar o pensamento e a prática da arquitetura, se estivermos abertos a isso.

Minha ideia do que a arquitetura poderia ser se ampliou quando Gilberto Gil, cantor e intelectual brasileiro, comparou os edifícios de Oscar Niemeyer, em Brasília, a uma canção. Colocou a arquitetura em diálogo com uma forma de arte que pode ser sentida, encarnada e performada. Desde então, tenho buscado em minha prática repensar como raça, gênero, conhecimentos ancestrais e ecologia podem influenciar a maneira de construírmos espaços e vivenciarmos a arquitetura.

No Brasil, embora 56% da população se autodeclare negra, há uma enorme lacuna de representação afro-brasileira no campo da arquitetura. Ao longo de todo meu trabalho arquitetônicp, curatorial, pedagógico e de pesquisa, eu crio condições que impulsionam as práticas espaciais afro-brasileiras para gerar novas formas de construção coletiva. Em 2018, fundei o Mulheres Negras Arquitetas, um projeto que mapeia o trabalho de mulheres negras brasileiras na arquitetura contemporânea, destacando mais de 800 profissionais nos 26 estados brasileiros. Dando continuidade a esse trabalho, fundei o Instituto Cambará, uma plataforma que promove a produção teórica, crítica e prática de pessoas afro-brasileiras. Por meio do Cambará, a teoria se torna matéria; estrutura, performance, diálogo. Os projetos que desenvolvemos investigam como a arquitetura pode se tornar um meio de reparação, escuta e encontro. Nesse sentido, o Cambará não é apenas uma instituição, mas uma atitude, um gesto curatorial que insiste na apropriação coletiva e nos saberes localizados.

OCO, uma das iniciativas atuais do Cambará, é tanto uma residência quanto uma estrutura de bambu projetada coletivamente com artesãos e arquitetos locais. A estrutura é, ao mesmo tempo, abrigo e espaço de troca, reunindo pessoas em uma prática de reparação. É uma arquitetura que respira e se transforma à medida que as pessoas a habitam. OCO encarna as mesmas questões que movem minha pesquisa: como podemos construir a partir da troca de conhecimentos entre mulheres negras? Como a produção do espaço pode ser uma forma de aprendizado pelo ato de dar vida a projetos anticoloniais? Por meio do OCO, as ideias do Terreiro — a primeira expressão da arquitetura afro-brasileira — articulam cuidado coletivo e ancestralidade por meio de um discurso crítico sobre curadoria e experimentação arquitetônica. É onde se fudem a teoria, a prática e a crítica, constituindo parte do movimento contínuo que é o pensar fazendo.

Meu trabalho de doutorado com o Curatorial Research Collective investiga a relação entre dois lugares fundamentais do patrimônio arquitetônico brasileiro: o complexo do Coaty, projetado pela arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi, em Salvador, e o Terreiro Casa Branca do Engenho Velho, um projeto construído coletivamente pelas comunidades de Orixá e Quilombola. Entre o Terreiro e o modernismo, investigo como o conhecimento arquitetônico pode ser reimaginado quando aproximamos esses dois lados radicalmente diferentes da expressão arquitetônica brasileira.

Embora esses espaços sejam fruto de cosmologias distintas, ambos consideram a arquitetura como um campo relacional, fundamentado no encontro entre corpo, território e comunidade. Criar esse diálogo entre o Terreiro e o modernismo não pretende gerar contraste ou polaridade. Em vez disso, busca aprender com a coexistência e com as diferentes formas como esses espaços preservam o tempo e a memória e estimulam a produção coletiva. Ao recolocar as arquiteturas afro-brasileiras no centro da história, do discurso e do conhecimento da arquitetura brasileira, o projeto busca reconhecer a diversidade de nossas manifestações espaciais. Ele contesta a ideia de que o concreto é um material natural, apolítico e universal, capaz de solucionar todos os problemas arquitetônicos, e desmonta a noção de que o modernismo brasileiro é a representação única ou definitiva da nossa identidade arquitetônica.

Aprender com o Brasil é reconhecer que a arquitetura não é simplesmente uma disciplina dedicada a projetar edificações, mas um processo de existência e uma prática que pode nos reconectar aos conhecimentos territoriais. A arquitetura diz respeito à forma como construímos depois da devastação, à maneira como a memória se inscreve no espaço e a como imaginamos outras formas de fazer. No meu trabalho, procuro acolher estes gestos coletivamente para tornar visível aquilo que foi historicamente silenciado e criar condições para que novas formas de diálogo possam surgir.

Essa, acredito, é a tarefa da arquitetura hoje: criar espaços que não apenas desenhem o caminho, mas também experimentar formas de habitá-lo.

O Cambará Instituto de Fomento à Arquitetura Afro-Brasileira é uma iniciativa independente dedicada à pesquisa, à produção e à difusão da arquitetura afro-brasileira. Busca amplificar vozes historicamente marginalizadas e construir pontes entre arquitetura, cultura e transformação social. Por meio de projetos curatoriais, programas públicos e experimentação colaborativa, o Cambará atua como uma plataforma para práticas decoloniais e para a reimaginação da arquitetura.

Ciclo de apoio: 2025