O arquiteto local José Fernando Gomez, cujo escritório Natura Futura é sediado em Babahoyo, entende essa realidade. Desde 2019, ele trabalha em parceria com os moradores do rio para reimaginar e construir um bairro permanente sobre as águas.
“Eu cresci tomando banho nesse rio, para mim tudo isso era completamente normal”, conta José. “Consideramos essas casas flutuantes e a margem do rio como uma extensão da cidade. Mas o que acontece com as políticas públicas e com esses ditos ‘territórios marginalizados’ é que os políticos chegam e dizem: ‘temos que acabar com isso, isso não presta. Fiquem longe do rio, é de lá que vem a pobreza’.”
Apenas seis anos antes do deslocamento de 2016, os bairros flutuantes de Babahoyo haviam obtido o reconhecimento do governo equatoriano, quando suas técnicas construtivas em madeira foram reconhecidas pelo Instituto Nacional de Patrimônio Cultural como parte do patrimônio cultural imaterial do país.
Estamos interessados em desconstruir a ideia de arquitetura social. Quando falamos de comunidade, não se trata apenas deles: eu também faço parte dela.
Mas o Las Brisas del Río rompeu vínculos ancestrais e físicos com o rio. As famílias perderam renda, acumularam dívidas e abriram mão de redes de sociabilidade ao serem afastadas de seus meios de subsistência às margens do rio. Em vez de fortalecer e reparar a relação já fragilizada com o rio, a cidade acelerou o rompimento entre a comunidade e o ambiente ao qual ela estava tão profundamente ligada.
El Barrio Flotante, ou o Bairro Flutuante, é uma colaboração entre a Natura Futura e os moradores do rio Babahoyo para restaurar as condições sociais e ecológicas de um dos últimos bairros flutuantes tradicionais do Equador. Hoje, oito novas casas flutuam no rio, cada uma delas projetada em parceria com as pessoas que vivem nelas.
Víctor Amaiquema está diante da porta de sua nova casa flutuante, olhando para o rio. Atrás dele, a resistente madeira local foi tingida em um tom de mel. Tradicionalmente, as casas flutuantes de Babahoyo não têm portas propriamente ditas; janelas e portas desempenham funções semelhantes, permitindo a entrada de ar e luz, enquanto paredes feitas de ripas de bambu garantem a visibilidade de dentro para fora. Uma porta veneziana e janelas treliçadas na casa nova preservam essa mesma lógica de projeto. Canoeiro e pescador a vida toda, Víctor tem um módulo flexível que abre para um espaço arejado onde pode guardar e limpar seus equipamentos de trabalho.
Sua vizinha, Doña Teresa Mariscal, divide a casa com o irmão Rodolfo, de quem cuida. A nova casa flutua 60 centímetros acima da linha d’água e conta com um banheiro acessível e mobiliário no primeiro piso, para Rodolfo. Do lado de fora, Teresa observa os netos brincarem em um deque amplo.
O que mantém cada casa flutuando é uma estrutura formada por mais de 40 tanques de flutuação reciclados, unidos por uma estrutura leve de metal e outras madeiras locais. Uma ponte flexível conecta cada casa à margem do rio e, por meio dela, à cidade. Como sistema, as casas foram projetadas para subir e descer de acordo com o ritmo sazonal do rio: sobem com a cheia no inverno e descem com a vazante no verão.
“Primeiro, tivemos que construir cada [fundação] em terra firme, para poder encaixar os tanques”, explica o construtor local Roswell Suarez. “E, quando conseguimos fazê-la flutuar, começamos pelo piso, depois vieram os elementos verticais, as treliças e, então, fomos entrelaçando o restante da estrutura ali mesmo, no rio.”
Um novo sistema de filtragem e captação de água da chuva fornece a cada casa 300 litros de água potável por semana, economizando para as famílias até um terço da renda mensal que antes era destinada este recurso. Banheiros secos conectados ao mesmo sistema transformam os resíduos em fertilizante, em vez de permitir que cheguem ao rio sem tratamento.
À medida que os moradores analisavam os projetos das casas com José, suas contribuições começaram a a mudar a perspectiva sobre o projeto para além das moradias privadas, rumando aos espaços públicos e aos bens comuns ecológicos que as conectam. Hoje, cada uma das oito casas de El Barrio Flotante se conecta por uma ponte a uma passarela inundável de 150 metros que acompanha a margem do rio, ligando as casas entre si e o bairro à cidade.
Árvores resistentes às cheias, como o tarumã e o pau-d’arco, ajudam a conter a erosão da margem à medida que suas raízes penetram no solo, ao mesmo tempo que filtram a água e contribuem para a recuperação de um leito fluvial mais limpo. A figueira-estranguladora, uma árvore oca nativa da região ribeirinha, costuma servir de abrigo para aves e morcegos que fazem ninhos dentro de seu tronco. Com o tempo, espera-se que garças, sapos e tilápias retornem às águas, sinais claros de um sistema vivo e biodiverso em recuperação.
“Estamos interessados em desconstruir a ideia de arquitetura social”, diz José. “Quando falamos de comunidade, não se trata apenas deles: eu também faço parte dela. E, quando partimos deste lugar de consciência, desta compreensão do território, começamos a perceber que a arquitetura pode gerar uma transformação real.”
Em uma tarde úmida de outubro do ano passado, as oito casas foram concluídas e a reimaginação coletiva do bairro foi celebrada com música, comida e apresentações. A temporada de vazante proporcionou que a praça pública inundável não estivesse inundada naquele momento e ela se transformou em palco para reunir os moradores e vizinhos do novo Barrio Flotante. Poucos meses depois, quando o espaço ficou submerso durante a estação chuvosa, as famílias correram para a “piscina” e montaram suas mesas de petiscos e guarda-sóis multicoloridos no píer público. As crianças brincavam na água e mergulhavam em saltos mortais, enquanto uma música alta saía das caixas de som dos vendendores ambulantes estacionados na margem.
O Bairro Flutuante é o primeiro do gênero no Equador a ser reconhecido como parte da estrutura urbana oficial de uma cidade, enquanto continua a se desenrolar uma campanha de incidência em políticas públicas em defesa dos direitos e da permanência do bairro. Ele chamou a atenção da cidade; autoridades municipais participaram das reuniões de revisão dos projetos promovidas pela comunidade e apoiaram parte da logística da construção, abrindo, pela primeira vez desde o programa de reassentamento de 2016, um espaço de diálogo.
“É uma recuperação do nosso patrimônio”, explica José. “Viver no rio sempre fez parte desta cidade: trabalhar com a madeira local e a bambu guadua, fazendo manejo ambiental das margens e das técnicas tradicionais que estavam sendo perdidas. Tudo isso nos ajuda a manter a conexão entre o rio e a terra, e semea frutos para a próxima geração."
Por meio de um acordo de responsabilidades compartilhadas com a cidade de Babahoyo, os moradores manterão a propriedade de suas casas, pontes e sistemas de filtragem, enquanto a cidade se compromete a cuidar das passarelas e dos espaços públicos.
Quanto a Don Pedro, ele está otimista em relação ao futuro que sua comunidade construiu para si. “Me sinto esperançoso. Talvez eu volte a pescar. Eu vou voltar a pescar."