Kareena Kochery e Samidah Patil estão profundamente inseridas na comunidade há dezesseis anos, trabalhando com a urbz, um estúdio de arquitetura e urbanismo. A qualquer momento, é possível encontrá-las caminhando pelas ruas da vila e colocando a conversa em dia com os vizinhos que as abordam no caminho para o trabalho. É ali que nascem todos os projetos de planejamento urbano que desenvolvem no bairro — não com plantas ou briefings, mas com um simples “olá”. E, recentemente, essas conversas informais começaram a trazer à tona uma preocupação recorrente: uma das principais vias de Dharavi Koliwada era escura demais.
“Um dia, em Dutta Mandir, uma mulher do bairro me chamou de lado e me fez uma pergunta”, conta Kareena. “‘Posso te falar uma coisa? Eu só queria dizer que ajudaria muito se pudéssemos colocar uma luz perto dos banheiros comunitários.”
Mais conversas nas ruas e em reuniões comunitárias públicas confirmaram que a preocupação com a iluminação era compartilhada por outras pessoas que moravam ou passavam diariamente por Dutta Mandir — estudantes, inquilinos, pessoas que se deslocavam para o trabalho e as pescadoras que trabalhavam no mercado no fim da rua. Parte da iluminação pública havia sido instalada há mais de 50 anos, mas a vila cresceu tanto que ela ficou obsoleta e, na maior parte das ruas e espaços abertos, a iluminação vinha apenas da luz da lua ou do que vazava das lojas e domicílios privados.
Percorrer Dutta Mandir a pé trouxe à tona a necessidade de mais iluminação e também de quebrar as hierarquias que as reuniões de grupos comunitários, muitas vezes dominadas por homens, podem involuntariamente reforçar.
“Normalmente, primeiro faríamos um plano indicando todos os pontos que carecem de iluminação”, diz Kareena. “Mas percebemos rapidamente que a dinâmica social não permitiria isso aqui.”
Dutta Mandir é uma rua estreita. Seus andares superiores se projetam para fora sobre a viela abaixo, reflexo de como os moradores foram expandindo suas construções para cima e para os lados ao longo dos anos. Por isso, as novas luminárias públicas não seriam fixadas em postes existentes ou em outras estruturas de domínio público, mas aparafusadas nas propriedades privadas — nas fachadas de casas e lojas, em caixas de escada, sob varandas ou sob a projeção dos andares superiores. Esse choque entre propriedade privada e espaço público deu início a negociações envolvendo proprietários, inquilinos, comerciantes e moradores. De quanta luz eles realmente precisavam? As luzes atrapalhariam o sono dos moradores? As perfurações e a fiação comprometeriam a integridade das paredes? Que tipo de lâmpadas seriam utilizadas?
Feitas de aço inoxidável ou alumínio fundido, as luminárias estanques encontradas em navios comerciais são feitas para resistir a violentas tempestades em alto-mar.
Primeiro, a coalizão comunitária comprou lâmpadas em uma loja local e as instalou naquela primavera, uma espécie de protótipo para testar seu posicionamento e colher opiniões. Mas, quando junho chegou a Mumbai, trouxe consigo as monções. Ventos fortes varreram a Koliwada por meses, arrancando as novas luminárias de seus suportes e afundando a Dutta Mandir novamente na escuridão. “As monções têm vontade própria, são uma força que você realmente precisa respeitar”, diz Samidah. “É seguro dizer que subestimamos as monções na primeira vez.”
Castigadas e danificadas pelas condições climáticas, as instalações temporárias ainda assim serviram de piloto para gerar novos desdobramentos. Os vizinhos perceberam seu potencial e aderiram ao projeto, chegando a sugerir outros pontos que deveriam ser iluminados. Mas o recado das monções era bem claro: luminárias comuns não serviriam ali.
Então, eles olharam para onde os Koli sempre olharam: para o mar.
Feitas de aço inoxidável ou alumínio fundido, as luminárias estanques encontradas em navios comerciais são feitas para resistir a violentas tempestades em alto-mar. Kareena, Samidah e sua equipe viajaram até Alang, o estaleiro de desmonte de navios na costa noroeste da Índia e um dos maiores do mundo. Em uma única viagem, encontraram todas as luminárias de que precisavam para iluminar a rua.
“A questão da identidade é um tema que surge com muita força aqui”, diz Samidah. “As pessoas de Dharavi Koliwada tinham a sensação de que ninguém conhecia Dharavi Koliwada. Os jovens, especialmente, queriam trabalhar em algo que os fizesse sentir que sua vila faz parte do patrimônio da Índia e de Mumbai, que não é uma favela.”
Os moradores queriam que essa identidade marítima estivesse integrada às próprias luminárias. Sendo assim, antes mesmo de as luzes serem instaladas e acesas, o artesão local Dutta Koli projetou um conjunto de suportes simbólicos, com o nome do bairro inscrito em escrita devanágari. Hoje, caranguejos, camarões e ostras iluminam Dutta Mandir.
Antes dos protótipos, das monções e das luminárias de navios de Alang, o escritório da urbz ficou brevemente sem energia. Naquele momento, o projeto de iluminação de Dutta Mandir não passava de uma ideia na mesa de Kareena e Samidah. Um conjunto de anotações, desejos, preocupações e reflexões anotados em papel. Dois eletricistas locais que conheciam a rede elétrica de Dharavi melhor que ninguém, Vicky Koli e Ankush Gite, foram ao escritório para restabelecer a energia; o culpado era provavelmente um fusível queimado. Como costumam fazer ao bater papo com os vizinhos, Kareena e Samidah aproveitaram para perguntar: “vocês acham que há iluminação suficiente em Dharavi Koliwada à noite?” A conversa acabou se transformando em uma colaboração que, mais tarde, levaria o projeto de iluminação das ruas de Dharavi dos desejos sussurrados entre vizinhos a algo concreto. Vicky e Ankush conhecem cada cantinho de Dutta Mandir e cada pessoa que mora ou trabalha ali.
“Foi um sonho trabalhar com eles”, diz Kareena. “Eles conheciam o território, sabiam exatamente de onde puxar um fio ou por onde passar os cabos. As pessoas da comunidade são indispensáveis quando se trata da tecnologia.”
Se as luminárias que iluminam o trajeto até o mercado de peixes são infraestrutura, para Samidah e Kareena as conexões e relações humanas que abriram o caminho para essa iluminação também o são.
Não haveria fiação sem Vicky e Ankush, nem negociações com inquilinos e proprietários sem amigos como Onal Koli, nem ideias ou conhecimentos sem as mulheres e os parceiros comunitários que se manifestaram.
A iluminação de Dutta Mandir é um projeto-piloto para compreender como uma infraestrutura de iluminação ampliada poderia funcionar em toda a vila. A pedido dos moradores, alguns trechos da rua também estão testando a instalação de painéis solares para alimentar as luminárias e também suas próprias casas. Os primeiros painéis-piloto foram instalados no terraço de uma vizinha, com atenção especial para não bloquear a área ensolarada onde ela seca os peixes que vende no mercado.
O projeto faz parte de algo mais amplo, o Plano de Desenvolvimento Abrangente Baseado em Ações (conhecido pela sigla ABCDs, do inglês Action-Based Comprehensive Development Plan), de Koliwada, uma estratégia de planejamento participativo direcionada por moradores que oferece uma alternativa aos planos diretores convencionais de cima para baixo, os quais costumam intervir numa localidade com ideias prédeterminadas sobre o que ela precisa. Conhecimentos locais, interações cotidianas e redes de confiança inspiram soluções comunitárias, em vez de um planejamento presumido. A Dharavi Koli JamatA organização tradicional de governança da comunidade Koli em Dharavi Koliwada pescadores, mulheres, jovens e não-Koli que também chamam o bairro de lar moldaram todas as outras quatro prioridades do ABCD. Elas incluem a transformação de uma antiga alfândega da era colonial em espaço de estudos para estudantes; a criação de um parque público regenerativo às margens do rio Mithi, unindo meios de subsistência e imaginação ecológica; e o redesenho e planejamento da infraestrutura de abastecimento de água e saneamento.
Da forma como Kareena e Samidah contam a história, o projeto não é tanto sobre iluminação quanto sobre o efeito cumulativo do cuidado em um bairro. “É por meio de práticas cotidianas de cuidado que uma infraestrutura cívica eficaz ganha forma”, dizem. “Ela nunca é criada de uma só vez.”